Notícia: Obesidade infantil: por que cresce e quais os caminhos para prevenção?

Obesidade infantil: por que cresce e quais os caminhos para prevenção?

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1 em cada 3 crianças brasileiras está com sobrepeso ou obesidade. Entenda as causas da obesidade infantojuvenil e papel de escolas, famílias e políticas públicas na prevenção

A imagem mostra uma criança comendo um cereal

Aposto que você já viu essa cena: na volta da escola, a criança pede um salgadinho, um refrigerante ou um biscoitinho recheado. Muitas vezes, não é uma escolha. É o que está mais disponível, mais barato e acessível, sobretudo num cotidiano cada vez mais corrido.

No Brasil, 1 em cada 3 crianças têm sobrepeso ou obesidade infantil, segundo dados do Ministério da Saúde. Se nada mudar, podemos chegar à 5ª posição no ranking mundial de obesidade infantil até 2030, de acordo com Global Atlas on Childhood Obesity.

Mais do que um hábito individual, a obesidade infantil é um problema social e precisa ser enfrentado de forma coletiva.

O que causa a obesidade infantil?

A obesidade é uma condição complexa, causada por múltiplos fatores e caracterizada pelo excesso de gordura corporal que causa prejuízos à saúde. Em crianças e adolescentes, a obesidade aumenta o risco de desenvolver doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e doenças cardiorrespiratórias.

No mundo, 390 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vivem com sobrepeso ou obesidade, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS).

Durante muito tempo, era comum associar a responsabilidade da alimentação saudável apenas às famílias, mas a realidade é mais complexa e envolve outros contextos e fatores.

Por que é difícil ter acesso a uma alimentação saudável?

Em territórios com maior vulnerabilidade social, como periferias e favelas, o acesso a alimentos frescos e in natura é limitado. Já os alimentos ultraprocessados (que nem são considerados alimentos por muitos especialistas devido ao baixo teor nutritivo) como refrigerantes, salgadinhos, embutidos, estão por toda parte: são mais baratos, duram mais e são amplamente divulgados.

"Falar de acesso à alimentação adequada e saudável é falar de direito e equidade. Comida de verdade não deve ser um privilégio de poucos, mas um direito assegurado a todas as pessoas independente do território onde vivem.”, explica Renata Couto, diretora do Instituto Desiderata, organização que atua no fortalecimento de políticas públicas de saúde para crianças e adolescentes.

Renata Couto, diretora do Instituto Desiderata
Renata Couto, diretora do Instituto Desiderata. Foto: Arquivo pessoal

Segundo Renata, existem verdadeiros desertos alimentares, onde comida de verdade é cara ou simplesmente não está disponível

Outro fator é a alta jornada de trabalho, seja fora ou dentro de casa, e a responsabilidade feminina em garantir a alimentação da família.

“Muitas vezes, são mulheres que trabalham longe de casa, pegam transporte público e ainda precisam dar conta de tudo. Nem sempre elas têm tempo para cozinhar." enfatiza a diretora do Instituto Desiderata. 

Obesidade infantil e desnutrição podem coexistir

Um dos pontos que Renata ressalta como mais preocupantes é a dupla carga da má nutrição

São crianças com obesidade infantil, mas que não têm os nutrientes necessários para um desenvolvimento saudável.

“Elas têm peso corporal, mas não estão devidamente nutridas. É um tipo de desnutrição muito cruel, porque não tem um caráter visual evidente, mas compromete o desenvolvimento físico e cognitivo, a longo prazo”, alerta Renata.

Na América Latina e no Caribe, mais de 4 milhões de crianças menores de 5 anos têm sobrepeso, segundo relatório do UNICEF.

No Brasil, 32% das crianças menores de 5 anos estão com excesso de peso, e entre 5 e 19 anos esse índice também supera os 30%, de acordo com o Panorama da Obesidade em Crianças e Adolescentes (2023).

Grande parte desse quadro está relacionada ao consumo frequente de alimentos ultraprocessados, ricos em açúcar, gordura e aditivos, mas pobres em nutrientes.

Como o ambiente influencia na obesidade infantil

Até que ponto as escolhas são realmente individuais?

Hoje, crianças e adolescentes estão expostas a estímulos o tempo todo: sejam nas gôndolas com embalagens com seus personagens favoritos até mesmo nos intervalos das séries que assiste no YouTube.

“Quase 90% do consumo de conteúdo acontece pelo celular, e isso inclui uma exposição massiva à publicidade”, explica Renata.

Existe um sistema alimentar físico e digital que estimula o consumo de produtos ultraprocessados desde cedo.

O papel da escola na prevenção da obesidade infantil

Se o ambiente influencia escolas, a escola tem um papel central no combate à obesidade infantil e infantojuvenil.

Crianças e adolescentes passam boa parte do dia no ambiente escolar e é ali que, muitas vezes, fazem as suas principais refeições.

Além disso, a escola é um espaço de aprendizagem e os hábitos construídos ali podem ir para dentro de casa.

“A escola é um ambiente estratégico. Não só pela alimentação, mas pela formação de hábitos”, afirma Renata.

Na rede pública, o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) garante refeições mais equilibradas. Mas em muitas escolas privadas, a oferta de ultraprocessados ainda é comum. Pensando nisso, o Instituto Desiderata atua na articulação de políticas públicas que limitam a venda desses produtos no ambiente escolar. Esse trabalho já contribuiu para a aprovação de leis no Rio de Janeiro (Lei 7.987/23) e em Niterói (Lei 3.766).

Além disso, o Instituto Desiderata também desenvolveu o Guia Prático para uma Cantina para auxiliar gestores e cantineiros em escolhas mais saudáveis.

Como prevenir a obesidade infantil na prática

A prevenção passa por ações do dia a dia:

  • ampliar o acesso a alimentos in natura
  • reduzir o consumo de ultraprocessados
  • fortalecer a alimentação escolar
  • investir em educação alimentar

Medidas como a rotulagem ajudam, mas ainda exigem mais informação.

Inscrições abertas para o Doc Futura

O Canal Futura, em parceria com o Instituto Desiderata, está com inscrições abertas para a 17ª edição do Doc Futura, que vai selecionar um projeto de documentário inédito sobre obesidade infantojuvenil.
 

A proposta escolhida será coproduzida com o Canal Futura, com investimento de até R$ 200 mil, e exibida nacionalmente, com lançamento também no Globoplay.

Se você tem uma história, pesquisa ou iniciativa sobre o tema, essa é a oportunidade de transformar esse debate em impacto real.

👉 As inscrições são gratuitas e vão até 24 de abril
👉 Confira o edital aqui
👉 Inscreva seu projeto aqui