Notícia: Fundação Roberto Marinho realiza formação do programa A Cor da Cultura para professores da rede municipal do Rio

Fundação Roberto Marinho realiza formação do programa A Cor da Cultura para professores da rede municipal do Rio

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Atividades na capital fluminense encerram primeira fase do programa, que envolve mais de mil educadores de 31 municípios brasileiros 

Fotografia feita de cima e por trás de uma pessoa sentada à mesa enquanto folheia um livro ilustrado. A pessoa, de cabelos curtos grisalhos e camisa clara, segura o livro aberto com as duas mãos e observa atentamente uma página com uma ilustração em tons de vermelho inspirada em grafismos e elementos da cultura afro-brasileira ou indígena. Ao lado da imagem há blocos de texto.
Educadores do Rio participam de oficinas e recebem kit pedagógico. Foto: Felipe Conrado

Entre os dias 27 e 29 de julho, cerca de 150 profissionais da rede municipal de ensino do Rio de Janeiro se reuniram no Centro do Rio, para uma etapa fundamental do programa A Cor da Cultura. O encontro presencial consolidou um percurso formativo iniciado há alguns meses e mobilizou professores, diretores e gestores da secretaria na construção de práticas pedagógicas antirracistas. 

A iniciativa integra uma estratégia nacional que envolve, aproximadamente, 1.200 educadores em cinco estados brasileiros: Rio de Janeiro, Bahia, Maranhão, Goiás e Paraná. O objetivo é fortalecer esses profissionais como multiplicadores de saberes em suas respectivas redes de ensino, consolidando práticas pedagógicas antirracistas no cotidiano das escolas e secretarias de educação. 

“O relicário foi algo que realmente mexeu comigo de um jeito especial”, conta a professora Fernanda Carvalho. Na dinâmica, tradicionalmente marcada pela emoção, os participantes apresentam objetos com significados marcantes em suas trajetórias, reconectando-se a memórias e valores. “A atividade ativa as nossas memórias individuais e faz a gente perceber que, para obter bons resultados no todo, é preciso valorizar cada experiência vivida”, completa. 

Há dez anos na rede municipal do Rio, Fernanda trabalhou alguns anos em sala de aula, mas hoje está alocada na Escola de Formação Paulo Freire. Ela atua na formação de coordenadores pedagógicos e diretores com foco na transversalidade das relações étnico-raciais. Na prática, seu papel é garantir que a equidade seja pensada em diálogo com todas as áreas do conhecimento, independentemente da disciplina ou etapa de ensino. 

“Com tudo o que tenho aprendido no A Cor da Cultura, quero ampliar a formação que ofereço aos educadores. Minha ideia é mostrar que um ambiente de ensino vai muito além de conteúdos programáticos: ele é feito de pessoas, com seus medos, alegrias, inseguranças e expectativas. Isso nos desafia a lidar com identidades plurais, conectadas a territórios que, mesmo quando distantes de nós, carregam potentes histórias de vida”, ressalta a professora.

Fotografia feita de cima que registra uma composição de objetos organizados sobre uma toalha azul com estampa floral colorida. Os itens estão distribuídos em formato circular, sugerindo uma dinâmica coletiva de formação ou roda de conversa.  Entre os objetos, há fotografias de família em porta-retrato e impressas, livros, uma folha de partitura musical, um pano branco dobrado, um bordado, uma pequena caixa, um colar de contas azuis, uma sapatilha de tecido, uma manga, uma concha, um garfo e outros.
Relicário reúne objetos de educadores durante a formação. Foto: Isabella Salomão

Nessa nova etapa de implementação, o A Cor da Cultura tem foco prioritário em 31 municípios definidos pela Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (Pneerq). A iniciativa também prevê a entrega de seis mil kits pedagógicos para dar suporte ao trabalho cotidiano nas salas de aula.  

Educadora na Fundação Roberto Marinho, Bernardete Rufino, ressalta a conexão entre a metodologia do A Cor da Cultura e a diversidade encontrada nas escolas brasileiras. “Quando essa metodologia é aplicada, o impacto aparece na relação dos alunos com a escola. Eles se reconhecem no conteúdo. Percebem que suas histórias importam.  Sentem que podem falar e ser ouvidos. E, principalmente, entendem que o conhecimento não está distante, ele atravessa a vida, o território, as experiências”, comenta.  

Essa nova fase do programa é fruto de uma articulação intersetorial que une a Fundação Roberto Marinho, o Ministério da Educação (MEC), o Ministério dos Direitos Humanos, secretarias municipais, a Fundação Palmares e a Universidade Federal do Paraná (UFPR). 

O programa A Cor da Cultura é voltado à valorização do patrimônio histórico e cultural afro-brasileiro e indígena. Criado em 2004 pela Fundação Roberto Marinho, a iniciativa apoia profissionais e instituições de ensino na promoção da educação para as relações étnico-raciais, prevista nas leis 10.639/03 e 11.645/08. Para isso, atua na formação de educadores, na disseminação de metodologias e na produção e circulação de materiais pedagógicos e de comunicação.  

Pioneiro ao inserir a perspectiva afro-brasileira no campo educacional, a nova fase do programa ganha ainda mais relevância ao incorporar a história e cultura dos povos indígenas. 

Caminhos para uma Educação Antirracista 

O encontro presencial integra uma jornada formativa mais ampla, de mais de 70 horas, que se estenderá pelos próximos meses. Com a etapa do Rio de Janeiro, a entrega dos kits pedagógicos será concluída em todas as 31 cidades prioritárias. Até o final do ano, os educadores participarão de novos ciclos formativos, com a perspectiva de que desenvolvam, em suas escolas, projetos que utilizem os materiais, a metodologia e os aprendizados construídos ao longo do programa. 

Formadora do A Cor da Cultura, Luana Dias destaca que a vivência presencial é o momento em que a metodologia do programa se materializa no encontro coletivo. “A partir da escuta ativa, articulamos as trajetórias de vida e a bagagem profissional das professoras e dos professores às diretrizes legais que orientam a educação para as relações étnico-raciais. Dessa forma, refletimos, problematizamos e construímos juntos caminhos para a efetivação de uma educação antirracista, além de estratégias de combate ao racismo no cotidiano escolar”, afirma Luana. 

Caracterizados por trocas profundas e vivências coletivas, esses encontros presenciais permitem que os profissionais experimentem, na prática, valores centrais da metodologia do A Cor da Cultura, como o cooperativismo, a circularidade, a ludicidade e a afetividade. Segundo Luana, essa experiência partilhada não apenas consolida o aprendizado técnico, mas também estreita laços na própria rede de ensino, criando conexões que potencializam o trabalho dos educadores. 

“A metodologia do A Cor da Cultura não oferece respostas prontas. Ela oferece caminhos. Caminhos para pensar, dialogar, questionar e transformar. Ser educador dentro dessa perspectiva é assumir um compromisso com a justiça”, avalia a líder de projetos educacionais na Fundação Roberto Marinho, Bernardete Rufino. 

Para além do grupo diretamente mobilizado nas oficinas, todo o acervo pedagógico está disponível em versão digital e pode ser acessado gratuitamente por qualquer pessoa no site oficial do A Cor da Cultura: futura.frm.org.br/projeto/cor-da-cultura

Trajetória do a Cor da Cultura no Brasil 

Entre 2004 e 2014, o A Cor da Cultura passou por três fases de implementação, alcançando mais de 9 mil educadores em 18 estados brasileiros. Para o momento atual, a metodologia e os materiais pedagógicos foram revisados, mantendo as premissas que consolidaram o programa como uma referência nacional, reconhecida pelo MEC em 2009 como tecnologia educacional. 

A nova edição dos materiais do programa foi elaborada de forma coletiva, com a contribuição de 50 consultores de diferentes regiões e culturas, e busca fortalecer práticas pedagógicas baseadas em valores civilizatórios afro-brasileiros e indígenas.   

O kit pedagógico, disponível no site do projeto, é composto por cadernos de textos que trazem as diretrizes da metodologia e revelam toda a riqueza e a diversidade das palavras afro-brasileiras e indígenas. A partir desse material, rico em ilustrações, os educadores e estudantes podem, por exemplo, conhecer melhor e explorar os mapas das terras indígenas, das línguas originárias, do continente africano e da diáspora africana.